Xenoblade Chronicles é incível! dezembro 19, 2011
Posted by Zé in Jogos Wii.Tags: Dunban, Fiora, JRPG, Shulk, Wii, Xenoblade Chronicles
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Resumo da história: estava eu jogando Batman: Arkham City, adorando o jogo, quando tive um ataque de tendinite causado por apertar o botão X um milhão de vezes por segundo. Desde então, deixei o homem-morcego (e meu braço) descansando, e passei a jogar Xenoblade Chronicles, um JRPG lançado para Wii e que chegou na Europa em agosto. E a única coisa que eu tenho a dizer é que sou grato pela minha tendinite.
O interessante de Xenoblade Chronicles é que o jogo subverte todos os clichés de JRPGs (que são muitos, diga-se de passagem) de forma surpreendente; tudo o que é familiar em JRPGs está presente neste jogo, mas utilizado de forma tão competente que é incrível. Joguei apenas algumas horas, um pouco depois do final do primeiro ato do jogo, e fiquei impressionado com a história, personagens e a forma como as mecânicas do jogo são coerentes com a história.
Este post se destina a analisar o primeiro ato do game (que dura de duas a quatro horas, dependendo de sua vontade em fazer quests), e mostrar o quão incrível e diferente o jogo é. Portanto, espere spoilers sobre este início de jogo abaixo. Então vamos aos TÓPICOS QUE MOSTRAM PORQUE XENOBLADE É INCRÍVEL!
CARACTERIZAÇÃO DO MUNDO!
Geralmente, todo JRPG que se preze começa com uma narração épica, falando do mundo, descrevendo um evento que gerou uma situação de caos nele (uma guerra, a aparição de uma entidade maligna etc), mostra esta situação sendo resolvida por um grande herói, e o jogo começa séculos após isto, com o mesmo problema retornando.
Xenoblade começa, literalmente, narrando o início do mundo: dois gigantes, um representando formas de vida orgânicas, e outro, máquinas, lutavam uma luta sem fim, até que um dia, um deles obteve vitória. É no corpo petrificado destes gigantes que todos vivem.
A partir dessa pequena caracterização, o jogo passa para uma cena de guerra entre os seres humanos (Homs) e as máquinas (Mechons), mostrando que a guerra sem fim dos gigantes continua sendo travada pelas formas de vida que os populam. A primeira surpresa de Xenoblade começa nesse ponto: você joga na guerra contra os Mechons, controlando Dunban, o herói capaz de utilizar a misteriosa espada Monado, que é capaz de cortar a armadura dos Mechons com facilidadde. No entanto, a Monado é poderosa demais até para um herói como Dunban controlá-la, e a espada o machuca a todo momento. Após você derrotar alguns Mechons e aprender um pouco sobre o sistema de batalha, Dunbam sucumbe ao poder da espada, e a cena termina.
Depois dessa cena, passa-se um ano, e aparentemente tudo está em paz, pois Dunban conseguiu derrotar os Mechons. Sim, nada de se passar séculos em Xenoblade. Só se passou um simples ano entre o evento épico (do qual o jogador fez parte) e o jogo em si, e o mais legal é que Dunban está vivo e mora na mesma colônia que o protagonista do jogo, Shulk. Apesar de ter sobrevivido, ele está com o braço direito quase inutilizável devido ao poder da Monado. Essa pequena transição de tempo faz com que o jogador se afeiçoe muito mais aos eventos e personagens do jogo, pois você não está lutando para derrotar ameaças antigas; a ameaça ainda está presente, e apesar dos Mechons terem sido derrotados, as pessoas vivem em estado de alerta, com medo de que eles voltem. Além disso, Xenoblade não explica as origens, mistérios ou os motivos da guerra, pelo contrário, tudo isso é apresentado naturalmente nas entrelinhas do diálogo entre os personagens.
SHULK É UM NERD!
O protagonista de Xenoblade, Shulk, é sem dúvida o personagem mais interessante do jogo, e isso se dá pelo simples fato de que ele é inteligente e curioso. Geralmente, protagonistas de JRPGs tendem a ser fortes e um tanto quanto ignorantes ao mundo que os cercam. Shulk é justamente o contrário disso: a impressão que se tem, na verdade, é que todas as pessoas do mundo vivem em um estado de ignorância, inclusive Shulk, mas ele tenta entender o mundo ao seu redor.
O maior exemplo disso se dá depois de completar a primeira dungeon do jogo, uma espécie de ruína High-tech: Shulk diz que a tecnologia do local, que foi construída há muito tempo atrás é impressionante, e que hoje o domínio desta tecnologia se perdeu. A atitude de Shulk em relação ao mundo revela ao jogador mais um detalhe importante sobre o mundo: parece que o período em que esses personagens vivem é uma espécie de “idade das trevas”. O período de glória dos humanos já passou, e não há registros do que aconteceu.
Além disso, Shulk pesquisa os poderes da Monado, tanto para entender a tecnologia antiga quanto por motivos pessoais, então quando ele obtém a espada no fim do primeiro ato devido a uma invasão de Mechons na colônia onde vivem e a utiliza bem, é algo que se torna coerente com a caracterização do personagem.
DUNBAN, O HERÓI FALHO!
Dunban é um personagem que achei extremamente interessante. Em muitos JRPGs, há a figura do personagem modelo, um personagem que o protagonista aspira superar. Em Final Fantasy XII por exemplo, Balthier faz as vezes deste papel, pois Vaan quer se tornar um pirata tão bom ou mlhor que ele; o mesmo vale para a relação entre Kratos e LLoyd, de Tales of Symphonia. O problema desse “personagem modelo” é que a caracterização feita por eles na história do jogo não condiz com o que o jogador vê. Balthier e Kratos, apesar de serem considerados homens fortes e experientes, tem exatemente o mesmo nível de força que os protagonistas inexperientes, o que faz com que toda a caracterização feita na história seja uma mentira.
Em Xenoblade, isso não acontece. Na guerra do início do jogo, quando se controla Dunban, ele está no nível 28; quando os Mechons atacam a colônia um ano depois, Dunban pega novamente a Monado e se une a Shulk para derrotá-los, e o nível dele é 20, mostrando que ele ainda não está completamente recuperado do que a Monado lhe causou, mas mesmo assim, ele é um guerreiro muito superior do que os seus personagens, que devem estar por volta do nível 12, no máximo.
Além disso, Dunban existe não como alguém que Shulk admire e queira ultrapassar, e sim o contrário. Shulk o admira pela coragem, determinação e força, e nesse sentido quer ser igual a ele, mas Dunban é o exemplo vivo do que pode acontecer com Shulk se a Monado sair do controle. Se Shulk se tornar como ele, significa que falhou em controlar os poderes da Monado e foi por ela corrompido.
HISTÓRIA E MECÂNICAS DO JOGO COINCIDEM!
Esse foi um dos aspectos mais impressionantes para mim em Xenoblade, e isso é dizer muito. Uma das maiores críticas aos games em geral, mas em especial aos JRPGs por focarem demais na história, é que as mecâncias do jogo não coincidem com a história. Como exemplo, na série Devil May Cry, nas cutscenes do jogo Dante sempre derrota os inimigos sem sofrer e de forma estilosa, enquanto que no jogo o jogador apanhou pra caramba para chegar naquele ponto. Outro exemplo é a clássica cena da morte de Aeris, em Final Fantasy VII. Se ela foi morta ali, por que os heróis não usaram uma phoenix down para revivê-la? Essa desconexão entre história e mecânicas faz com que os jogos se tornem esquisofrênicos.
Em Xenoblade, até onde joguei, o esforço para unir história e mecânicas foi fantástico. Para começar, não existem itens para se usar nas lutas. Nada de potions, ethers ou revives. Isso já elimina o problema do “por que não usam itens nas cutscences?” Outro exemplo é quando Shulk começa a usar a Monado. O personagem, em algumas cutscenes, tem breves visões do futuro mostrando quando ele ou amigos vão morrer, e usa esse conhecimento para tentar evitar o destino trágico. Quando vi isto, pensei que seria algo interessante se as visões ocorressem nas lutas, era uma pena que isso não iria acontecer.
Uma dungeon depois, Xenoblade calou minha boca. Shulk descobre o que realmente são suas visões, e elas começam a aparecer nas batalhas. Toda vez que Shulk ou um aliado está prestes a levar um golpe fatal, Shulk tem uma visão mostrando o inimigo que vai atacar, o tipo de ataque, e o aliado que vai morrer. Após a visão, você tem alguns segundos para evitar que a visão se conclua, seja avisando o seu aliado do que vai acontecer (o que é bem difícil as vezes, pois para isso é necessário que uma barra, que enche quanto mais você luta, esteja cheia), matando o inimigo em questão ou utilizando uma magia da Monado chamda Shield, que protege seus aliados. Isso cria uma situação de urgência que dificilmente acontece em outros JRPGs. Esse esforço em unir mecânicas e história é algo que mais JRPGs (e outros jogos em geral) realmente deveriam fazer. E para terminar, o ocorrido que termina o primeiro ato, dá sentido à jornada do herói e une tudo o que já foi dito até agora é…
FIORA!
Fiora é a irmã de Dunban, e o interesse amoroso de Shulk. Esse tipo de personagem costuma ser irritante em JRPGs, por serem mulheres que só existem para se colocar em situações de perigo e fazer com que o protagonista as salve, além de todo o blábláblá e indiretas sobre amor.
Mas é com este personagem que Xenoblade pega o que seria um dos maiores clichés e joga na sua cara, mostrando que realmente é um jogo diferente. Vamos do começo: eu não odiei Fiora como já aconteceu com outras personagens femininas. Apesar dela gostar de Shulk e se preocupar com ele, ela tem uma personalidade forte, é independente e também toma conta de Dunban para que este melhore o mais rápido possível. O momento no qual Fiora brilha, no entanto, é no fim do primeiro ato, quando a colônia é invadida pelos Mechons.
Shulk, Fiora e Reyn, seu amigo do exército, vão tentar pegar a Monado, mas o caminho está bloqueado por pedras. Eles então tem a ideia de reativar um robô para explodir as pedras. Ao chegarem perto do robô, os três são emboscados por Mechons. Shulk e Reyn começam a lutar contra eles, ao passo que Fiora corre para reativar o robô. Neste momento, Dunban aparece com a Monado em mãos e salva Shulk. Os três partem atrás de Fiora, mas quando chegam aonde ela está, são emboscados por um Mechon diferente, que tem uma máscara como rosto.
Shulk, com a Monado em mãos, diz que não vai ser problema passar por esse Mechon, afinal a Monado está com eles. A partir daí a luta contra o chefe começa, e por algum motivo, os ataques da Monado não tem nenhum efeito sobre a armadura desse Mechon. Tanto os personagens quanto o jogador tem a mesma reação: Monado, a espada lendária e poderosa, que deveria dar conta dos Mechons, se tornou inútil…
Os três personagens são paralisados por um golpe do Mechon, e na cutscene que segue, Fiora reativa o robô e pilotando ele, sai destruindo tudo no seu caminho. Quando chega perto do Mechon com rosto, Shulk tem uma visão do robô de Fiora sendo destruído, e começa a gritar para ela sair de lá. Sem forças para fazer nada, a visão se concretiza: o robô é destruído, e Fiora, morta brutalmente pelo Mechon, seu sangue escorrendo das garras da máquina. Neste momento, seu grupo se recupera da paralisia e, num acesso de raiva, conseguem danificar um pouco o Mechon, que foge.
Quando essa cena aconteceu, eu fiquei perplexo, pois Xenoblade em nenhum momento indicou que Fiora fosse morrer. Pelo contrário, achei que ela seria um dos personagens principais, pois ao longo do primeiro ato, é possível conseguir diversas armas novas e customizá-la como os outros personagens. As mecânicas de Xenoblade tornam a caracterização feita de Fiora real. Se fosse um outro jogo, ela provavelmente seria um personagem “guest”, não ganharia experiência ou seria impossível trocar os equipamentos dela.
É depois da morte de Fiora que Shulk e Reyn saem da colônia, com o objetivo de caçar e matar o Mechon com rosto. Eles não saem com a nobre missão de salvar o mundo, e sim para se vingar. Apesar do motivo dos personagens ser questionável, é impossível, após ver a morte de Fiora sem ter o que fazer, de não simpatizar com a causa dos dois. A morte de Fiora dá uma razão plausível para a jornada dos heróis, ao invés da babaquice geral de “você é o protagonista então deve sair e salvar o mundo”. Xenoblade não torna o que são clichés conhecidos em relações complexas, e sim em relações humanas, que são plausíveis e com as quais o jogador se identifique e simpatize.
Isso é o que eu posso dizer das primeiras horas de Xenoblade. Se o jogo mantém esse nível de excelência durante o resto do jogo, eu não sei, mas espero que sim. E caso você esteja procurando um JRPG que saia do comum, COM CERTEZA NÃO VAI SE DECEPCIONAR COM ESTE JOGO!!!





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