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Sexo, Games e Rock’n Roll setembro 27, 2011

Posted by Zé in Reflexão.
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Olá a todos! Bom estar de volta, já estava sentindo falta de escrever sobre games. Fim de faculdade é uma coisa tensa: o TCC está consumindo minha alma nessas últimas semanas, mas quando terminar de escrevê-lo, vou voltar com muitas ideias e questões sobre games. Por ora, publico um texto que escrevi sobre sexo nos games para a agência de jornalismo online da PUC-SP, espero que gostem!

Existem muitos tabus em todo tipo de veículo transmissor de idéias, e os games, por serem um veículo muito novo, ainda sofrem grandes restrições e, muitas vezes, censura ao abordar certos temas. Um dos tópicos que mais gera polêmica, principalmente entre as pessoas que nunca pegaram em um joystick, mas que criticam games fervorosamente, é o sexo.

Quando uma companhia anuncia que um jogo terá cenas de sexo, é garantia de que sua avó, mãe e vizinha extremamente conservadoras irão fazer barulho. Mass Effect e Dragon Age, dois jogos de RPG da empresa BioWare, contém cenas de sexo leves e foram duramente criticados por isso. God of War tem o infame minigame de Ménage à Trois, e o terceiro jogo da série Grand Theft Auto, já polêmico por dar liberdade total para o jogador destruir o mundo, continha um minigame secreto de sexo explícito, que quando foi descoberto, alimentou o ódio de muitas pessoas.

Polêmicas à parte, é preciso perguntar duas coisas: por que abordar sexo nos games é um tabu, e qual a necessidade em se abordar este tema em um game? A resposta da primeira pergunta é relativamente simples: games ainda são tidos por muita gente como coisa de criança, e não como veículos de comunicação de ideias em massa. O mesmo aconteceu com as histórias em quadrinhos até a década de 90, quando finalmente passaram a ser consideradas como veículos “maduros”. Esse preconceito tende a diminuir com o passar dos anos (nos Estados Unidos, este ano os jogos já foram considerados como bens culturais e de arte), é só esperar.

O segundo tópico já é mais difícil. Como inserir o sexo em um jogo, de forma que ele contribua para a narrativa e imersão no jogo? Nesse ponto, acredito que os desenvolvedores raramente acertam. Os exemplos mencionados, em sua maioria, não tratam o sexo com parte integrante da história, e sim como um simples bônus para os jogadores. Em GTA e God of War, a única função é recuperar a vida, enquanto que em Mass Effect, é a consumação de uma conquista: durante o jogo inteiro é possível flertar com os personagens do seu grupo, e ao final, se o jogador conquistar alguém, é recompensado com uma ceninha de sexo entre os dois personagens.

Existe um potencial único nos games de discutir questões relacionadas a sexo que estes jogos falham em captar, transformando o que poderia ser algo complexo em um mero espetáculo, que não acrescenta muito para a narrativa ou a imersão do jogador. Felizmente há exceções, com grupos de desenvolvedores que tentam tratar desses temas, e sucedem. Um exemplo é o jogo de Playstation 2 Persona 4, que tem como tema principal a repressão sexual.

Persona 4 é a mistura bizarra das séries Malhação e Pokémon, apimentadas com um pouco de Freud. Confuso? Sim, mas a fórmula funciona muito bem, e o jogo toca em pontos extremamente polêmicos de um modo muito sensível, raramente visto nos games ou, até mesmo, em livros e filmes.

O jogo acontece na pequena cidade de Inaba, na qual o seu personagem vai morar por um ano. Estranhos assassinatos estão ocorrendo na cidade, e você, junto com seus amigos adolescentes, descobrem que existe um mundo secreto dentro da televisão, que reflete o inconsciente de quem é jogado lá de uma forma deturpada e exagerada, e este reflexo, se não for confrontado pela pessoa, vai matá-la. A história pode parecer estranha, e de fato é, mas é incrível o que os desenvolvedores fazem com o conceito do mundo da TV.

O interessante em Persona 4 é que a história do jogo está completamente amarrada à história de vida e os conflitos internos e sombrios dos personagens jogados no mundo da TV. “Mas o que isso tudo tem a ver com sexo?” você deve estar pensando, impaciente. Bom, tem tudo a ver, porque os conflitos internos são, na maioria das vezes, resultantes da repressão sexual que os personagens sofrem.

Por exemplo, Yukiko, a primeira personagem que você precisa salvar, é uma garota que sofre uma pressão familiar muito forte (estamos falando de uma cidade do interior do Japão, na qual os valores tradicionais são levados muito à sério) para ser a melhor aluna, herdar a pousada da família e para ser perfeita; essa cobrança fez com que ela se reprimisse, de forma que ao ser jogada na TV, seu inconsciente cria um castelo, no qual ela é uma princesa à procura de seu príncipe encantado para salvá-la de sua vida miserável.

A figura do castelo é a metáfora da prisão que é sua vida, na qual suas pulsões estão o tempo todo sendo deixadas de lado para atender às expectativas dos pais, e a forma que seu inconsciente toma, um pássaro flamejante preso em uma gaiola, é o símbolo de que seus desejos e vontades reprimidos precisam sair, senão ela nunca será feliz.

Outro exemplo, talvez até mais simbólico e forte, é Kanji, a segunda pessoa jogada na TV que deve ser salva. Kanji é, definitivamente, o melhor personagem do jogo. Ele é o típico bully do colégio, o machão membro de uma gangue de rua, que vive causando confusão, mas o que ele esconde, até de si mesmo, é o fato dele ser homossexual. Ao ser jogado na TV, seu inconsciente, um Kanji afeminado, cria uma sauna Gay para expressar suas pulsões ignoradas. Ao navegar pela sauna para tentar salvá-lo, a todo momento ouve-se as vozes de Kanji, e o conflito que existe dentro dele fica evidente: “como ser homossexual e macho ao mesmo tempo?” “Está certo eu ser Gay, quando todos esperam que eu goste de mulher?”

Kanji esconde e nega sua opção sexual porque sabe que a sociedade conservadora na qual ele vive iria tratá-lo como uma aberração caso descobrisse, e ele perderia seu status de bad boy. A forma que o inconsciente dele toma, um gigante metade preto e metade branco, com um colar de flores formando um ponto de interrogação, mostra que o personagem está em um eterno conflito, sem saber para onde ir.

Ao salvar os personagens, seus dilemas não acabam: eles entendem que a projeção inconsciente, apesar de exagerada, é uma parte deles que não é possível ignorar, e durante o jogo inteiro, é possível vê-los enfrentando seus medos e ficando cada vez mais maduros. Isso é usar de forma inteligente o sexo nos games, pois debate temas que são intrínsecos a muitos de nós de uma forma extremamente delicada.

É difícil jogar o jogo e não se identificar com um ou mais personagens e seus conflitos internos. Persona 4 tem mais um monte de exemplos, mas esses dois já são suficientes para entender que o sexo pode ser parte integrante da narrativa de um game, e não simplesmente uma forma de recuperar a vida do seu herói musculoso.

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Comentários»

1. Sexo, Games e Rock’n Roll | Sobre a Depressão - dezembro 11, 2011

[…] JoguEpense Share Sem categoria Games, Rock’n, Roll, Sexo O Espírito Santo e a Sabedoria de Deus […]


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